A filosofia Pré-Socrática tem como principal característica a ruptura com as formas primitivas de pensar a realidade. Os mitos, com deuses que assumem características humanas — paixões, emoções e guerras —, bem como as crenças e opiniões (doxa), já não eram suficientes como fonte de conhecimento. Enquanto o mundo caótico mitológico era organizado pela arbitrariedade de seres divinos, na filosofia emergente o mundo passa a ser visto como cosmos: ordenado, inteligível e compreensível à razão humana. Os mitos não desapareceram definitivamente de imediato, mas foram perdendo espaço e importância para o critério racional, que se apresentou como a nova forma de conhecimento verdadeiro (episteme) do universo e de tudo o que existe.
Essa mudança de perspectiva cosmológica foi denominada como a "transição do mito ao logos". Os mitos trabalhavam a Cosmogonia (cosmos, universo; gonia, nascimento, geração), que é a narrativa fantástica sobre o surgimento do mundo. A filosofia, por sua vez, inaugura a Cosmologia (cosmos, universo; logia, razão, estudo), ou seja, o estudo racional do universo em sua origem, evolução e estrutura. O helenista Jean-Pierre Vernant utiliza o termo "desmitologização" para denominar esse processo, que também esteve profundamente ligado ao surgimento da polis (a cidade-estado) como o novo cenário da vida pública e do debate na Grécia antiga.
O pensamento desse período fundamenta-se, portanto, no desejo de encontrar os princípios fundamentais que deram origem ao universo: a arché (início, começo), a partir da qual tudo se desenvolveu. Esses pensadores não buscavam estabelecer uma teoria que explicasse em detalhes todos os aspectos isolados da natureza (physis), mas sim uma espécie de "teoria geral" que oferecesse uma fundamentação racional clara, opondo-se à narrativa mitológica. Por focarem suas investigações no mundo material e cosmológico, esses pioneiros ficaram conhecidos historicamente como Físicos ou Filósofos da Natureza.
Como não havia tecnologia ou métodos científicos modernos para provar suas teorias, esses filósofos estabeleceram o critério da coerência lógica para a construção desse novo modo de pensar. Segundo esse critério, uma ideia precisava fazer sentido racionalmente para ser aceita. É aí que o conceito de logos se coloca como fundamental para toda a filosofia grega. Significando originalmente "palavra, discurso ou razão", o logos no pensamento cosmológico representa tanto a razão ordenadora que governa o próprio universo quanto a capacidade racional humana de compreendê-lo através de argumentos lógicos.
Embora as indagações e respostas dadas por esses primeiros pensadores tenham sido superadas em grande parte pela filosofia subsequente e pelas ciências modernas, o período possui uma importância inestimável. Suas questões e hipóteses pioneiras deram as condições necessárias para que o conhecimento humano se desenvolvesse sob novas abordagens e perspectivas. Muitas das ideias inauguradas por eles, inclusive, continuam sendo discutidas ainda hoje.
É por essa relevância própria que o termo “Filosofia Pré-Socrática” para designar esses pensadores é amplamente criticado por historiadores contemporâneos. Essa classificação, popularizada apenas no século XIX pelo historiador alemão Hermann Diels — e completamente desconhecida pelos gregos antigos —, pode denotar um demérito injusto quanto ao trabalho que empreenderam, como se a importância deles estivesse limitada a apenas "preparar o terreno" para Sócrates. Além disso, a divisão temporal é imprecisa, visto que grandes nomes desse período, a exemplo de Leucipo e Demócrito, foram contemporâneos do próprio Sócrates. Portanto, a academia adota essa nomenclatura hoje estritamente por fins didáticos, servindo para enfatizar a mudança do objeto de estudo entre as escolas: enquanto os pensadores da physis concentravam esforços na compreensão da natureza, os socráticos direcionaram o foco para a compreensão do homem na perspectiva ética e política.
Você acredita que atualmente deixamos de acreditar em monstros e deuses para tentar entender o mundo pela lógica ou os mitos ainda são atuais?
By Ednaldo Teixeira
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