Capítulo Quatro - Quebra de Encantamento
Para descobrir quem realmente somos, precisamos primeiro reconhecer aquilo que inconscientemente nos domina.
O quarto capítulo aborda o processo de individuação a partir de uma perspectiva voltada à psicologia feminina. Stein recorre ao conto dos Irmãos Grimm “A Velha do Bosque”, para representar um processo de transformação psicológica. O conto apresenta uma jovem criada que, depois de passar por uma perda repentina e violenta, se vê sozinha, insegura e sem saber que caminho seguir. Para Stein, situações como essa podem romper antigas formas de identidade e abrir espaço para uma nova etapa da vida.
Enquanto era criada, a vida da protagonista estava organizada em torno de uma estrutura externa que definia seu lugar e sua identidade. A perda rompe essa condição e a coloca diante de uma situação em que já não existe uma autoridade externa para dizer o que ela deve fazer. O bosque representa esse momento de incerteza e transformação. A antiga identidade foi deixada para trás, mas uma nova ainda não surgiu. Stein entende esse período como uma passagem de liminaridade, na qual o indivíduo permanece entre uma condição antiga e outra que ainda está por se formar.
Nesse momento, a jovem realiza um gesto importante: “ela se põe nas mãos de Deus” e permanece aberta ao que possa acontecer. A resposta surge simbolicamente por meio da pomba branca e da chave de ouro, que indicam o caminho a seguir, representando uma forma de orientação que pode surgir quando nos “afastamos” das referências anteriores. A jovem, porém, precisa seguir as instruções, enfrentar obstáculos e, principalmente, resistir ao encantamento representado pela velha. Esse enfrentamento implica abandonar uma identidade antiga e desenvolver a capacidade de escolher por si mesma diante das forças que tentam impedi-la.
O encantamento representa a situação em que conteúdos inconscientes exercem influência excessiva sobre a consciência. A pessoa perde a percepção do que realmente está acontecendo ao identificar-se com aquilo que a domina. Nesse sentido, a tarefa da individuação é reconhecer e romper com essa identificação. A velha do bosque representa a força que mantém a protagonista presa a uma determinada realidade. Por isso, a orientação para ignorá-la e escolher o anel simples em vez dos objetos mais atraentes indica que a jovem precisa aprender a escolher aquilo que realmente possui significado para si.
A história da jovem apresenta um movimento fundamental da individuação em que primeiro ocorre a ruptura com antigas identificações e formas de segurança; depois, surge a possibilidade de construir uma nova identidade. A quebra do encantamento, portanto, representa a libertação de uma influência externa e também a tomada de consciência das forças que podem limitar nossa autonomia. Stein conclui dizendo que, ao integrar-se: “Ela é um novo ser, de espírito vibrante, a criatividade fluindo em todos os níveis. Ela percorreu e continua percorrendo sua jornada, dia após dia, sempre rumo à plenitude”.
O que você precisa deixar para trás para descobrir quem realmente é?
By Ednaldo Teixeira
Comentários
Deixe seu comentário ou leia o que outros visitantes escreveram