Livro: A Coragem de Não Agradar
Autores: Ichiro Kishimi e Fumitake Koga
Editora: Sextante, 2018
Sob o título de “ O Terceiro Gigante Desconhecido”, Alfred Adler é apresentado como o criador da Psicologia Individual no início do século XX. Ele integrou a célebre Sociedade Psicanalítica de Viena, ao lado de Sigmund Freud, chegando a presidi-la. Entretanto, suas ideias contrariavam frontalmente a psicanálise freudiana, levando-o a separar-se do grupo. Conforme Kishimi e Koga, a teoria adleriana é subestimada, embora tenha influenciado grandes nomes da intelectualidade como Dale Carnegie e Viktor Frankl.
Dois conceitos são de grande importância para a correta compreensão da teoria adleriana: a etiologia (do grego aitia, causa), que estuda as causas e as origens de um fenômeno ou condição, e a teleologia (do grego telos, objetivo, fim ou propósito), que se dedica ao estudo da finalidade, do propósito e do objetivo que orientam todas as coisas, incluindo-se o comportamento humano.
Passemos às investigações apresentadas na obra.
Primeira Noite - Negue o trauma
O sentido que damos aos nossos traumas determinará a forma como eles nos afetarão, ao estabelecermos com eles uma relação que satisfaça mecanismos ignorados como de proteção ou validação. No sentido teleológico, a infelicidade decorre de uma decisão pessoal, pois, de algum modo, elegemos manter certos sofrimentos mediante a percepção desses benefícios individuais.
O autor defende que a etiologia freudiana não nos permite agir com liberdade, pois se o passado determina o presente, somos meros coadjuvantes da nossa história. Uma ressalva: embora a psicanálise freudiana seja classificada como determinista, a libertação do indivíduo ocorre por meio da “livre associação de ideias”. Em um ambiente propício e com o devido acompanhamento profissional, os traumas escondidos no inconsciente são identificados e ressignificados, promovendo a emancipação do sujeito. Esse processo não é instantâneo e nem tão simples a ponto de ser, a meu ver, ignorado como se percebe ao longo do livro.
As mudanças que queremos empreender somente serão possíveis na medida em que desenvolvemos auto aceitação, facilitando o emprego das ferramentas das quais dispomos para alcançar o bem que queremos. A auto aceitação é o reconhecimento e acolhimento integral de nossas qualidades e limitações sem incorrer em julgamentos desnecessários.
Os conceitos de personalidade e temperamento na psicologia adleriana ganham nova roupagem: “estilo de vida”, traduzido do alemão lebensstil. Em sentido amplo, corresponde à visão de mundo. Essa perspectiva individual pode ser alterada, tendo em vista que resulta de uma escolha. Mas essa decisão pode acarretar insegurança, e, exatamente por isso, requer coragem.
Os autores se valem de uma licença literária afirmando que, na Psicologia Individual de Adler, “o passado não existe”. Outra ponderação: Adler não nega a existência do passado. Ele reconhece a influência de fatores sociais, das escolhas passadas e do ambiente familiar. Assim, ao tomar consciência de seu estado atual, o indivíduo decide soberanamente (self criativo) abandonar a repetição de padrões. Esse processo não é indolor, pois gera angústias profundas quanto ao desconhecido. Entretanto, na narrativa do livro os autores parecem desconsiderar as marcas indeléveis que o trauma imprime na psique do indivíduo.
Quanto à procrastinação, tendemos a deixar possibilidades em aberto para alimentarmos a falsa sensação de que está tudo sob controle, acobertando o medo de testar nossa real capacidade no campo da realidade.
Você está procrastinando suas mudanças por medo de descobrir sua real capacidade?
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By Ednaldo Teixeira
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