Livro: A Coragem de Não Agradar
Autores: Ichiro Kishimi e Fumitake Koga
Editora/Lançamento: Sextante, 2018
Quarta Noite - Onde fica o centro do mundo
A Psicologia Individual de Adler considera o ser humano uma unidade indivisível, não separado de sua consciência nem de suas emoções – posição denominada holismo (do grego holos, “todo”). Sob essa ótica, da relação entre duas pessoas nasce a menor comunidade possível. Desse modo, não podemos ser compreendidos à parte de nossas relações sociais. A teoria adleriana guarda semelhança com a noção estoica de cosmopolitismo ao compreender o indivíduo como pertencente a uma comunidade potencialmente universal.
Ter consciência de que fazemos parte de uma comunidade maior amplia nosso senso de pertencimento e nos oferece um espaço de refúgio e partilha, onde o “eu” deixa de ser o centro do mundo. Surge, então, o “interesse social” (ou sentimento de comunidade): desempenhamos diferentes papéis, mas compartilhamos igual valor enquanto seres humanos.
Sob outro ângulo, pessoas autocentradas são incapazes de se desvencilhar do desejo de reconhecimento e de realizar a necessária separação de tarefas – isto é, o que depende de nós e o que é responsabilidade do outro. Na tentativa de construir a autoestima até mesmo a dedicação ao próximo pode ser uma atitude egoísta, voltada à validação por meio dos elogios. A essa armadilha, Adler deu o nome de “meta fictícia disfuncional”.
Para explicar essa dinâmica, surge a noção de “relacionamento vertical”. Nele, a repreensão e o elogio podem ser tentativas de manipulação, quando inibem a autêntica expressão do indivíduo. Sob essa perspectiva, o elogio pode reforçar a submissão e a dependência de alguém supostamente superior. Nessa estrutura hierárquica, a intervenção ocorre quando alguém superior quer conduzir alguém à direção desejada, valendo-se de ordens e de coação.
Por outro lado, teorias como o behaviorismo de Skinner consideram o reforço positivo essencial para o aprendizado e desenvolvimento do indivíduo. Além disso, a falta de elogios pode desencadear relações de frieza e distanciamento em vínculos de afeto e intimidade.
Do mesmo modo, insere-se a concepção de “relacionamento horizontal”, pautado no princípio de que “somos iguais, mas não idênticos”. É por meio do respeito à individualidade que nosso senso de valor e utilidade realmente aparece. Mesmo nas interações corporativas, há algum espaço para decisões autônomas ou recusas individuais. Em situações que demandem auxílio, o indivíduo que atua com palavras de gratidão, respeito e alegria favorece o desenvolvimento da autoconfiança do outro para assumir suas responsabilidades.
Reconhecendo que os autores se detiveram ao essencial da teoria proposta por Adler, podemos questionar: até que ponto os relacionamentos horizontais são plenamente realizáveis nos ambientes em que a hierarquia seja legitimamente estabelecida, como nas empresas, escolas e órgãos governamentais? Outro bom exemplo é a criação de filhos pequenos que demandam especial atenção. Sob minha perspectiva, mesmo quando eles já são adultos e independentes, um certo respeito especial aos pais é aconselhável em memória da história e dos afetos compartilhados.
O encorajamento, portanto, surge da percepção de que o que você faz tem valor e de que sua existência é benéfica para a comunidade. No nível dos atos, entretanto, estamos sujeitos à sensação de inutilidade quando não somos produtivos. Segundo os autores, no nível do ser, só por existir temos nosso próprio valor. É a situação de uma pessoa idosa que, embora não esteja mais em idade produtiva, mantém sua real importância e valor inestimável para a família.
A autopercepção de valor é algo que podemos elaborar a despeito da aprovação alheia. Dois passos são fundamentais para uma nova realidade: Dedicar esforços para o sentimento de comunidade e romper com o antigo padrão que, embora seja prejudicial, é também uma zona conhecida. Finalmente, os autores propõem que é preciso ter coragem para assumir o protagonismo no presente, transformando o próprio estilo de vida.
Na real, você vive para ser reconhecido ou para contribuir com a comunidade?
By Ednaldo Teixeira
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