Capítulo Dois - A Função da Experiência Numinosa na Individuação
Os dois lados de uma experiência espiritual profunda.
No capítulo dois, Stein assinala que a necessidade do movimento analítico decorre dos vínculos emocionais e da carga afetiva estabelecida com os objetos e imagens. Suas “vozes” fazem exigências impositivas e subjugam a vontade consciente, estabelecendo uma identificação psíquica desmedida com experiências relacionadas a figuras como os pais, mentores, amantes, líderes comunitários, inimigos, “fanatismos” etc.
Essas vozes e imagens podem ser compreendidas como manifestações de “arquétipos do inconsciente coletivo”, padrões psíquicos que se expressam de diferentes formas na experiência humana. Esses arquétipos possuem tanto qualidades primitivas (relacionadas à sexualidade, fome, criatividade etc.) quanto sofisticadas, relacionadas à cultura e à espiritualidade, aos padrões de instinto e de imaginação, e podem ser encontrados em diferentes culturas e épocas da história.
Por intermédio do movimento analítico, o ego estabelece distância suficiente para não se identificar de forma inconsciente e permanente com esses objetos. De acordo com o autor, esse movimento pode transformar o modo como o indivíduo se identifica com esses elementos: objetos religiosos, práticas tradicionais, doutrinas teológicas, símbolos tribais ou nacionais ou valores culturais.
Jung, recorrendo a Rudolf Otto, sustenta que a ideia de Deus tem sua origem com a experiência do numinoso. Essa experiência do Mysterium parte de uma “sensação do suprassensível”, isto é, além dos cinco sentidos, e constitui um alicerce comum às religiões, fundamentadas em impressões intensas do “Sagrado” que emergem das profundezas dos sentimentos.
Stein ressalta que a experiência numinosa pode libertar o indivíduo de sua patologia, dada a mudança profunda que ela produz em sua atitude e em sua personalidade. Como exemplo, Stein utiliza o caso de Paulo de Tarso a caminho de Damasco. Para Otto, em Jó, o sofrimento encontra seu significado na revelação do mistério transcendente de Deus.
Por outro lado, há o efeito potencialmente negativo da experiência numinosa: uma espécie de hiperidentificação. As experiências arquetípicas podem impulsionar a pessoa a extremos, levando-a a acreditar em uma verdade simples como a Verdade e a considerar um erro menor como fatalidade.
Desse modo, certos conteúdos transformam-se em certezas incontestáveis. A um passo adiante, está o mártir, cuja própria vida mortal é relativizada em função de sua causa. Outro exemplo é o clássico excesso no julgamento do erro dos outros: ao desejar ou oferecer o pior como punição para quem errou, o indivíduo ignora a magnitude de seus próprios erros.
A experiência numinosa possui significado próprio, mas não é o estado definitivo do desenvolvimento psicológico. Ela oferece insumos essenciais (a prima materia alquímica) para a obra de individuação ao serem assimilados como conteúdo arquetípico, estabelecendo-se como elo entre a consciência e o inconsciente. Stein denomina essa transição de um estado espiritual para o psicológico foi denominada “sublimação”.
As imagens arquetípicas, uma vez sublimadas, integram-se à identidade consciente, propiciando a libertação do ego. Assim, estabelecem os fundamentos da “função transcendente” elaborada por Jung. Dito de outro modo: o espiritual desconhecido se confirma e se amplia por meio do psicológico.
Buscas espirituais e experiências numinosas não são suficientes para estabelecer ou completar um processo de individuação, mas podem proporcionar ao indivíduo uma profunda transformação de atitude e de personalidade. Um novo sentido pode ser atribuído às próprias dificuldades e aos conflitos internos quando interpretados como estímulo à busca espiritual ou transcendental, contribuindo para um projeto psicológico mais amplo da individuação.
O processo de individuação se difere da busca religiosa quanto ao objetivo. Na experiência religiosa busca-se, de algum modo, a união com o divino ou a salvação. Para Jung, portanto, a individuação visa à integração e à totalidade da psique, trazendo conteúdos arquetípicos da experiência numinosa para a luz da consciência.
Você acredita que uma verdade que transforma você também pode aprisioná-lo?
By Ednaldo Teixeira
Comentários
Deixe seu comentário ou leia o que outros visitantes escreveram