Você sabia que, antes do surgimento da filosofia, o universo e seus fenômenos, a origem dos deuses, do homem e seus sentimentos eram explicados pelos mitos? A narrativa mitológica ocupava lugar central na cultura, religião e organização da sociedade grega, pois os gregos creditavam aos mitos autoridade divina, tornando-os inquestionáveis. A partir do século VI a.C., os primeiros filósofos conhecidos como pré-socráticos já não consideravam satisfatório esse modo de explicar a realidade. Ao fazerem perguntas que exigiam respostas racionais, eles protagonizam a origem da filosofia.
Historicamente, a transição do pensamento mítico para o racional ganha nome e identidade na Grécia Antiga. Tales, Anaximandro e Anaxímenes - todos de Mileto, na Grécia - foram os primeiros filósofos pré-socráticos. Pitágoras (570 a 490 a.C.) tem grande reconhecimento entre os estudiosos como a primeira pessoa a se designar filósofo, bem como a criar o termo Filosofia (philos - amor; sophia - sabedoria). Para ele, um filósofo não se considera um sábio, mas alguém que ama e está em busca da sabedoria. Apenas as divindades possuem-na, reservando exclusivamente aos humanos a prerrogativa do filosofar. A atitude filosófica, nesse contexto pitagórico, é o esforço contínuo de nos aproximar ao máximo da sabedoria dos deuses por meio da razão.
Atitude semelhante teve Sócrates (470 a 399 a.C.). A ele é atribuída a frase “só sei que nada sei.” Essa frase denota uma atitude humilde de quem reconhece os limites de seu próprio conhecimento. A consciência dessa limitação serve de inspiração para o questionamento das opiniões (doxa) e à busca incessante do conhecimento verdadeiro (epistéme). Sócrates desenvolveu uma metodologia de perguntas conhecida como “maiêutica” (maieutiké - a arte de partejar), que visava levar seu interlocutor a reconhecer a fragilidade de suas opiniões e chegar à verdade por si mesmo. O método socrático evidencia a ideia de que a atitude filosófica acontece quando a investigação criteriosa, lógica e racional substitui certezas ilusórias.
Ao contrário do que se poderia pensar, a filosofia não nasce apenas de temas complexos, pode também surgir de situações simples do cotidiano. Platão e Aristóteles partem da ideia de que a atitude filosófica surge do espanto (thauma) ou estranhamento. É a situação em que ocorre a quebra da normalidade e até o óbvio desperta curiosidade e desejo de compreender melhor. Então, o que parecia certo ou era vivido de forma automática ganha destaque diante do olhar atento. O espanto, portanto, é o primeiro passo para a atitude filosófica.
Certa vez ouvi uma frase que resume bem o segundo passo da atitude filosófica: “é colocar um ponto de interrogação onde existe um ponto final.” Trata-se do questionamento. As perguntas (erótisi) têm papel fundamental na filosofia, pois é a partir delas que iniciamos nossa busca por conhecimento. O ato de perguntar começa a dar direção e sentido a novas descobertas e mesmo as respostas que surgem podem dar ensejo a novas perguntas. Cada indagação pode nos levar a territórios do pensamento totalmente desconhecidos e desconfortáveis, pois tiram a segurança de nossas certezas e convicções mais profundas. Filosofar é um ato contínuo de reflexão!
Veja alguns exemplos de quebra da normalidade. Quantas vezes no dia você olha para o relógio querendo saber as horas? Mas você já parou para pensar sobre o que é o tempo? Ou, ainda: o tempo existe ou é mera convenção humana? Sabemos que habitamos o planeta Terra, mas você já se perguntou sobre a origem do universo? Ou, qual a origem da vida? Essas são perguntas que intrigam a humanidade desde sempre, mas você pode questionar coisas simples. Por exemplo: ao desejar muito comprar um objeto, qual a sua verdadeira motivação? Ao se apresentar a uma pessoa você diz seu nome, mas você já se perguntou "quem sou eu? Perceba como situações do dia a dia podem despertar nossa atenção e se tornar objetos de nossa atitude filosófica.
Voltemos às origens da filosofia. Os gregos inauguram esse movimento por explicações racionais para a realidade, rompendo com opiniões impostas e explicações mitológicas - aceitas pela fé ou tradição. Daí a atitude radical e antidogmática da filosofia. Ela coloca tudo à prova, questiona as origens, as razões, a fraqueza ou a força do argumento. Também rejeita respostas prontas ou absolutas e busca as raízes mais profundas do conhecimento. Não é um trabalho sem objetivo, pois as respostas encontradas precisam ser estruturadas por meio de demonstrações lógicas. Essas demonstrações visam construir uma explicação sólida, confiável, baseando-se em argumentos coerentes e sistematicamente ordenados, criando um todo racional. Esse modo de explicar o real é o terceiro passo da atitude filosófica, conhecido como método crítico-reflexivo.
Em nosso cotidiano, certas experiências passaram a ser automáticas, ou ainda, temos tanta certeza de algo que isso passa longe de nossa atenção. Diante de tudo o que foi lido, há alguma situação que você gostaria de analisar mais atentamente?
By Ednaldo Teixeira
A filosofia pode ser considerada ciência? Veja em nossa próxima reflexão.
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