A região conhecida no passado como Jônia está localizada na costa ocidental da atual Turquia (Ásia Menor), sendo composta por doze cidades-estado no litoral e ilhas próximas ao Mar Egeu. Essa região recebeu o título de Berço da Filosofia e das Ciências Ocidentais. Situada em posição estratégica, era o principal ponto de contato entre a Grécia continental e importantes impérios orientais – os Lídios e os Persas. Mileto e outras cidades da região, como Éfeso e Samos, foram fundadas por volta do final do segundo milênio a.C. Para se ter uma ideia da relevância do território, de Mileto veio Tales - o primeiro filósofo; de Éfeso, Heráclito, o filósofo do devir; e de Samos, Pitágoras, a quem a tradição atribui a criação do termo “filósofo”, o qual migrou para Crotona, no sul da Itália, a fim de dar início à sua escola de pensamento.
Situadas em local estratégico, Mileto, Éfeso e Samos ganharam importante destaque na manufatura, no comércio e, principalmente, na navegação. Essa projeção marítima lhes conferia uma “talassocracia” (thálassa, mar; kratos, poder) que nascia frágil, pois a despeito do destaque alcançado, as cidades jônicas não possuíam unidade política e força militar terrestre capazes de resistir à pressão dos impérios vizinhos. Como centros portuários, mantinham importantes laços comerciais e culturais com outras cidades gregas e culturas diversas, notadamente as do Egito e da Mesopotâmia. Esses contatos além-fronteira causaram nos gregos um ‘estranhamento’ ao perceberem a diversidade de deuses e mitos.
“Diz-se que alguns dos primeiros filósofos gregos aprenderam com os sábios do Oriente” (McKIRAHAN, 2013, p. 59). Esse contato com outros povos favoreceu um intenso intercâmbio cultural com ênfase em astronomia e geometria que, mais tarde, seriam transformadas em ciência abstrata. A escrita se tornou a ferramenta que popularizou conhecimentos antes restritos à elite sacerdotal, o que permitiu o debate e a sistematização do pensamento. O contato com as civilizações do Egito e da Babilônia foi determinante para o florescimento da filosofia e das ciências gregas.
No Egito, a geometria era usada de modo prático para a medição de terras. A anatomia e a farmacologia também eram técnicas usadas com fins de cura e medicação. Na arquitetura, destacam-se a rigidez e a monumentalidade de pirâmides, templos e mastabas, estruturas utilizadas como túmulos que cultuavam a divindade dos faraós e celebravam a imortalidade. No aspecto escultural, predominam figuras estáticas e solenes, geralmente sem expressões faciais muito evidentes.
Na Babilônia, o sistema sexagesimal era utilizado para cálculos de tempo, ângulos e coordenadas geográficas. Esse sistema é utilizado até hoje para a contagem de horas, minutos, segundos e medidas angulares. Outra técnica babilônica era a observação rigorosa dos astros para a previsão de fenômenos lunares e planetários como forma de medir o tempo, bem como para fins religiosos, atuando como presságios divinos sobre o destino do rei e fundamento para ações políticas. Na matemática, desde cálculos mais simples até equações complexas faziam parte do ambiente cultural babilônico.
Toda essa cultura egípcia e babilônica serviu como ferramenta e dados para que, em contraposição ao uso prático e religioso, os gregos desenvolvessem sistemas logicamente estruturados que hoje conhecemos como matemática, astronomia, medicina, arquitetura e escultura, entre outras. Tales e Pitágoras desenvolveram teoremas que levam seus nomes e que são utilizados ainda hoje na matemática. Aos números, Pitágoras atribuiu um caráter abstrato e religioso na busca pela harmonia no cosmos. Essa sistematização do conhecimento fez parte da transição do mito ao logos experimentada pelos gregos – processo que ocorreu gradativamente, pois mito e razão coexistiram por muitos séculos.
De que maneira a curiosidade pelo 'estranhamento' cultural ainda é capaz de transformar a nossa visão de mundo hoje?
By Ednaldo Teixeira
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