O sistema palaciano micênico conferia aos monarcas (wanax) posição de autoridade absoluta, concentrando na pessoa do rei todos os tipos de poder: religioso, militar e jurídico. Nesse cenário, os escribas desempenhavam um papel crucial, eram os responsáveis por sustentar essa complexa burocracia que ia desde o aparelhamento administrativo até controles rigorosos sobre as terras, as riquezas, as armas e os soldados. O “Colapso do Bronze” – impulsionado por crises internas, falência de rotas comerciais, terremotos e batalhas com os “Povos do Mar” –, somado à invasão dórica no século XII a.C., resultou na destruição dos palácios. Esse desfecho pôs fim a um modelo civilizatório totalmente avesso ao debate público. Na obra de Vernant, esse colapso permitiu, séculos depois, o surgimento da pólis.
Com o colapso do sistema palaciano e a consequente extinção da figura do wanax, o basileus – um tipo de chefe local – passou a atuar como um chefe aristocrático com poderes militares, políticos e religiosos. A vida social ganhou nova configuração, pois famílias de nobres guerreiros começaram a disputar o poder entre si. Na ausência de um poder centralizado e absoluto, esses nobres combatentes se reúnem em assembleias para discutir questões em conjunto, e o discurso obtém proeminência neste cenário como principal instrumento de influência e persuasão mútua.
No cenário histórico da Grécia Antiga, ganha enorme relevância a ágora (agorá - local de reunião, assembleia ou mercado). Era um importante centro da vida política e social das cidades. Compreendia uma área dentro da cidade dedicada a debates políticos, religiosos, apresentações artísticas, assuntos jurídicos, militares e do cotidiano cívico. Tinham lugar ali os comerciantes e artesãos que montavam suas tendas e vendiam seus produtos. O grande fluxo de pessoas e a crescente importância da “palavra” e da persuasão favoreceram os debates de temas comuns da pólis. A escrita, que antes era usada apenas para fins contábeis e administrativos da monarquia palaciana, adquiriu caráter público e passou a ser difundida socialmente. Essa difusão descentralizou o acesso à cultura e facilitou o registro de leis escritas – base para a igualdade jurídica entre os cidadãos.
Quando o poder sai do palácio e vai para a praça, o que muda na sua liberdade?
By Ednaldo Teixeira.
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