Pensando aqui…
O impacto inicial causado pela reflexão filosófica pode se transformar na força que impulsiona a emancipação e reconstrução da própria realidade.
A filosofia desperta a dor da existência…
É comum buscarmos algum nível de satisfação quando iniciamos qualquer projeto de vida. Essa expectativa é natural, dado que nosso instinto mais primitivo busca evitar dores e afastar tudo o que possa causar sofrimento. No entanto, basta o primeiro contato com a filosofia para sermos tomados por uma inesperada melancolia. Parece que se abre um vazio totalmente desconhecido. De fato, a causa desse estranhamento está no despertar da dor do existir – um sentimento que raramente esteve em nosso radar.
A filosofia destrói nossas certezas
Muitas vezes, somos confrontados com conceitos diametralmente opostos ao que tínhamos como verdade absoluta. Nossos olhos se abrem e percebemos que a vida, os relacionamentos e a sociedade são inexoravelmente contraditórios. E, quando essas convicções são depostas, perdemos as bússolas que orientavam nossas ações. Surge, então, a inevitável pergunta: “Por que pensei assim por tanto tempo?”. Uma das respostas pode enfatizar que, de uma forma ou de outra, por nós mesmos ou por outros (inocentes ou não), fomos condicionados a interpretar a realidade do modo como sempre fizemos.
A filosofia revela nossos abismos
Sim! Nem tudo o que habita em nós é necessariamente bom ou virtuoso. Há abismos existenciais que nunca foram devidamente encarados. Esses vales sombrios podem ser o ódio, a inveja, a omissão, a traição em qualquer nível de relação, o egoísmo, a contradição, a mesquinhez e tantos outros. É aí que começamos a perceber que muito de nossas verdades e virtudes são apenas narrativas elaboradas para funcionarem como verniz social para a convivência coletiva. Nessa dinâmica, somos flagrados em nossa fragilidade e reconhecemo-nos aquém da nossa própria consciência e da sociedade.
Mas ao mesmo tempo…
A filosofia desperta para libertar
O processo se torna sublime quando, alcançado pela melancolia existencial, o indivíduo entende que essa inquietação é positiva e necessária. Ao perceber que a vida pode não ser tão justa quanto gostaria, ele começa a buscar meios de fortalecer sua autonomia e ampliar sua visão. Assim, encontra soluções para seus dilemas ou aceita, conscientemente, situações que não podem ser resolvidas. De todo modo, a dor pode até persistir, mas deixa de ser uma barreira intransponível para aquele que encontrou na filosofia um novo modo de viver.
A filosofia destrói para construir
Ao perceber que, depois de muito refletir, várias das nossas convicções restaram infundadas, abre-se um terreno fértil para novos aprendizados. Isso porque construímos concepções a partir do que percebemos em cada momento da vida. À medida que a consciência se expande, agregamos outros aspectos da realidade, compondo uma cosmovisão cada vez mais integrada entre o saber teórico e o saber prático. Nesse sentido, o exercício filosófico dá à luz um agente que se renova a cada novo insight.
A filosofia revela para superar
Se apenas tomássemos consciência de nossos abismos, o processo de crescimento ficaria incompleto e paralisante. Por isso, o autoconhecimento é uma ferramenta de descoberta de nossas potências internas. Enfrentar os próprios medos exige a certeza de que, embora os desafios sejam contínuos, eles não têm o poder de impedir nossa evolução. Cada vitória alcançada forja um indivíduo mais forte e preparado para as demandas da existência.
Conclusão
A filosofia atua como um instrumento de superação de ilusões chocando-nos contra a realidade por meio da razão. Esse impacto inicial causa desconforto, pois desconstrói certezas e expõe fragilidades, mas esse processo é fundamental para a expansão da consciência. Nesse sentido, ainda que não tenhamos todas as respostas – e jamais teremos –, é possível a reconstrução de uma visão de mundo ampla e sólida, assumindo definitivamente o protagonismo da própria história.
Você prefere o conforto de uma ilusão ou o desconforto que te liberta?
By Ednaldo Teixeira
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