Sob o título de “Consonância”, o segundo episódio de “A Primeira Arte”, produzido pela Brasil Paralelo, faz uma viagem no tempo apresentando uma reconstrução histórica e filosófica da música ocidental. O documentário parte da tentativa de responder ao questionamento sobre para quê serve a arte. Passa pela concepção platônica de que a música tinha o sublime papel de harmonizar o corpo com a ordem cósmica. A França do século XVII fica caracterizada pela substituição da adoração a Deus pelo louvor ao rei como representante divino na terra. O documentário também mostra como a música acompanha as mudanças políticas e sociais decorrentes da Revolução Industrial no século XVIII, na Inglaterra. Nesse período, a produção musical sofre profundas transformações, notadamente sua ampla popularização com vistas ao atendimento do crescente mercado de consumo.
Somos apresentados ao debate filosófico que se divide em duas vertentes quanto ao papel do artista e de sua obra. Sob uma perspectiva clássica, a arte tem por principal objetivo estabelecer a conexão da alma humana e seus anseios a uma “transcendência misteriosa”. E essa conexão se dá quando somos invadidos pela beleza da forma, da técnica e da mensagem. Nesse sentido, a arte tem uma essência abstrata, sendo o elo entre o humano e o divino. Sob a perspectiva moderna e essencialmente concreta, a atividade artística confronta, denuncia e rompe com os padrões vigentes, procurando novas soluções e possibilidades de se transformar a realidade. Tem, portanto, uma participação ativa em seu tempo histórico, mas podendo, inclusive, impactar visões de mundo de outras épocas.
Esse modo de impactar diferentes épocas é percebido pela forma como a música evolui ao longo da história. Ao que se sabe, eram vários os propósitos da arte musical há cerca de 3.200 anos. Usada em rituais religiosos para invocação de deuses; cura e medicina; preservação da história, etc. No período clássico grego e com a adição de outros instrumentos, propósitos como educação e moral foram acrescentados. O Órganum é a evolução do Canto Gregoriano que ganhou grande destaque nas comunidades cristãs na Idade Média. Diferencia-se ao acrescentar novas linhas melódicas funcionando como a primeira polifonia da história. Nesse período, havia a música sacra, cujo objetivo era o louvor a Deus; havia, também, a música secular que, por meio dos troveiros e trovadores, tinha propósitos distintos como entretenimento e sátiras políticas. Por volta do século XI, Guido d’Arezzo rompe com a memorização total das músicas ao criar o sistema de pauta musical – um protótipo da partitura –, facilitando o processo de ensino-aprendizagem.
A partir de então, o cenário musical passa por sofisticações e simplificações de acordo com a intenção dos grandes compositores e o público pretendido. Culminando na Revolução Industrial do século XVIII, Beethoven, com toda a sua intensidade emocional, marca a transição do Classicismo para o Romantismo. Chopin é o principal representante do Romantismo, com foco na poesia, lirismo e profunda exploração do piano. Ambos transformam a realidade da época ao confrontar sua audiência e transmitir profundas mensagens por meio de seus repertórios, alcançando imensa popularidade. Tais mudanças impactaram o mercado com a produção de instrumentos e partituras para a comercialização e a venda de ingressos em larga escala para concertos públicos.
Esse sobrevoo na história da música oferecido pelo episódio nos apresenta um importante panorama do papel vivo e dinâmico da música. Somado a isso, somos conduzidos à evolução conceitual, técnica e formal da produção musical. E, assim, percebemos que, muito mais do que produto de entretenimento, em toda a história, a música é uma força poderosa que reflete não só as condições políticas e econômicas de uma sociedade, mas os anseios mais profundos do ser humano. Com excelente didática e qualidade audiovisual, “Consonância” nos remete à compreensão de que, seja em sua atuação abstrata ou influência concreta, a música estará sempre presente gerando conexões e transformando realidades onde quer que ela tenha alcance.
Você acredita que a música tem poder de transformar a visão de mundo de uma geração inteira?
By Ednaldo Teixeira
Deixe o seu comentário: