A história de ‘As Duas Faces de um Crime’ gira em torno do julgamento do suposto assassino do renomado arcebispo de Chicago, Richard Rushman. Martin Vail (Richard Gere) é o proeminente e assumidamente arrogante advogado de defesa de Aaron Stampler (Edward Norton, em sua brilhante estreia no cinema). Como advogada de acusação está a Dra. Janet Venable (Laura Linney), que faz uma acusação técnica e implacável.
Atuações primorosas, história envolvente e uma reviravolta surpreendente compõem essa obra que provoca reflexões profundas sobre a aparência (doxa) e a verdade (episteme):
É comum em filmes dessa natureza a relativização da verdade e do direito como se a disputa sofística, isto é, meramente retórica, fosse a única forma de se conquistar a vitória processual. Isso nos mostra quão longe o ser humano é capaz de ir para defender sua reputação profissional, não se importando com a veracidade dos fatos nem com os danos que isso pode causar ao oponente.
No final das contas, o que se percebe é uma guerra de narrativas que sequestram os instrumentos de justiça. Filmes assim nos mostram que, ao invés de socorrer o desvalido, um sistema corrompido premia quem detém a melhor retórica, quem se expressa melhor, quem convence mais ou, até mesmo, quem paga mais… Ganha quem tem menos escrúpulos, menos princípios, menos brio. Joga-se o jogo para se valer dele. Na maioria das vezes, no topo da pirâmide estão os que se acham acima da lei, compondo uma rede de apoio a seus pares a fim de perpetuarem-se no poder. Manipulação é o verdadeiro nome do jogo.
E assim se constrói uma coletividade que substitui a verdade pela mentira. Aaron utiliza sua aparente fragilidade para induzir Martin Vail ao erro e manipular o sistema a seu favor, evidenciando que onde as aparências (doxa) valem mais do que a essência (episteme), o perjúrio torna-se uma ferramenta estratégica inevitável.
Desde os primórdios, a filosofia destaca a razão na busca pela verdade em detrimento dos sentidos, pois esses são efêmeros e, muitas vezes, ilusórios. A aparência pretensiosa engana o olhar e desconstrói o valor do ser, inviabilizando o diálogo com a honestidade e a honra. Nenhuma sociedade será verdadeiramente próspera se não for erigida sobre os fundamentos éticos da equidade, da justiça e da liberdade.
Em uma guerra de narrativas, a verdade importa ou vence quem argumenta melhor?
By Ednaldo Teixeira
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Ano de Lançamento: 1996
Disponível na Netflix
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