É incrível como treze minutos podem ser tão impactantes e gerar repercussões de alcance internacional. No início, você pensa: “Não vai valer a pena”. O filme começa simples, sem grandes perspectivas até que uma legenda diz: “Este não é um filme de ficção". Antes fosse! Assim, não estaríamos diante de um espelho cujo reflexo é de descaso e miséria absoluta.
Essa é a maneira como somos levados a conhecer Ilha das Flores, uma comunidade ribeirinha que faz parte do bairro Arquipélago, em Porto Alegre. Alvo de eventos climáticos como enchentes, sofre por falta de infraestrutura e grande desigualdade social. Serve, também, de aterro para o lixo de regiões adjacentes.
Em linguagem irônica, o diretor Jorge Furtado faz forte crítica às desigualdades resultantes do sistema econômico, elegendo o tomate para explicar a cadeia de consumo. Começando pela plantação, passa pelo comércio, o consumidor, o refugo doméstico, até ser recolhido por pessoas carentes após o descarte por parte de proprietários de porcos. Isso mesmo: pessoas se alimentam do que é imprestável para consumo dos animais. Diante desse cenário de extrema pobreza se diz que, ali, Deus não existe. “Se existe, por que não traz um prato de comida?”, devem pensar.
Hoje, 37 anos após o documentário, a situação de Ilha das Flores pouco mudou, assim como em muitos lugares no nosso planeta. A situação é grave e urgente, de modo que ações e discursos manipuladores no máximo iludem, mas não matam a fome. A fome mata o faminto e mata rápido.
Infelizmente, essa crise humanitária não afeta somente o Brasil do Futebol, mas em toda a vastidão do nosso Planeta Azul encontramos pessoas em carência extrema. Diante disso, somos levados a refletir sobre diversas temáticas. Perguntas como as que se seguem são inevitáveis:
Por que seres humanos chegam ao extremo da pobreza em um mundo com tanta abundância?
Se Deus é onisciente e onipresente, como explicar tanta miséria?
Se Deus criou a todos, nossa devoção não deveria se evidenciar no cuidado ao próximo?
Se Deus é uma entidade espiritual, por que se investe tanto em templos suntuosos enquanto, muitas vezes, falta o pão na mesa dos fiéis?
Se a arrecadação dos governos bate recordes e os gestores dizem trabalhar em função do povo, por que a estrutura social não se transforma?
Qual a parcela de responsabilidade de cada indivíduo, instituição religiosa, empresa e governante na solução da desigualdade?
Faltam recursos no mundo ou falta engajamento na solução do problema?
Os conflitos globais e a polarização decorrem de nossa incapacidade de enxergar o outro?
Obviamente, cada questão exigiria grandes tratados como resposta. Entretanto, podemos sugerir que cada indivíduo se veja como parte da solução. Isso é corresponsabilidade, conceito segundo o qual iniciativas individuais podem inspirar pequenas coletividades, gerando um efeito multiplicador. A compreensão de que nós, como indivíduos, compomos a humanidade deveria gerar um olhar mais fraterno e empático – já que, embora diferentes, temos necessidades básicas semelhantes. Não se trata da abdicação total dos bens, nem de ações paliativas para calar a consciência, mas de compreender que, no âmbito de atuação de cada um, atitudes planejadas e transformadoras podem ser tomadas.
De acordo com o curta-metragem, somos dotados de “liberdade” e de um “telencéfalo altamente desenvolvido”. Se ambos nos propiciam criar tecnologias e inventos que promovam conforto e bem-estar, podemos – e devemos – incluir o respeito e a dignidade da pessoa humana em nossas agendas.
Como se vê, a solução perpassa todos os estratos da sociedade. Antes de ser da religião “A” ou “B”, antes de pertencer a um ou outro partido político ou de ser adepto de uma ou outra ideologia, somos seres humanos. Essa é a condição que nos une. Mas a sensação é de que nosso telencéfalo ainda não foi capaz de aprender o essencial a despeito da nossa milenar existência no planeta.
Por que ainda falhamos na tarefa básica de não deixar o nosso semelhante passar fome?
By Ednaldo Teixeira
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