Se você soubesse que há milhões de versões paralelas suas existindo agora mesmo em outros universos, você gostaria de conhecê-las? E se essas realidades não te agradassem?
É com essa temática que a história de Coherence (2013) desenvolve-se em uma casa no subúrbio da Califórnia, nos Estados Unidos. Um grupo de amigos reúne-se na casa dos anfitriões, Mike e Lee, para um jantar regado a vinho e conversas sobre os rumos profissionais e amorosos que cada um tomou na vida.
Na trama desta intrigante história, o cometa Miller passa próximo à Terra, e fenômenos inexplicáveis começam a acontecer. Em dado momento, a energia elétrica cessa, o grupo inicia a busca por respostas e o clima de tensão toma conta do ambiente.
Ao consultarem um livro técnico, os personagens deparam-se com dois conceitos fundamentais da física quântica: o Experimento do Gato de Schrödinger, que ilustra a superposição de estados, e a Interpretação de Muitos Mundos, na qual realidades paralelas coexistem.
Alguns integrantes do grupo resolvem ir a uma casa logo adiante que, estranhamente, permanecia iluminada. Ficam perplexos ao perceberem que o imóvel é idêntico ao que habitavam inicialmente – e que lá havia cópias exatas deles mesmos. São as múltiplas realidades que se cruzam temporariamente, gerando caos na percepção temporal e expondo aspectos sombrios da condição humana, como o medo e a hostilidade.
No enredo, fica evidente que a casa (caixa) representa um dos universos paralelos – um microcosmo isolado. Os amigos (o gato) vivenciam essa multiplicidade de forma traumática: cada vez que uma pessoa sai dos limites da residência, retorna a uma versão diferente da realidade. O cometa funciona como o pivô da “coerência” temporária, fase na qual os mundos interagem de modo superposto. Após a passagem do cometa, cada personagem assume uma nova realidade independente em linhas temporais distintas, reproduzindo analogamente a decoerência quântica. A zona escura e sombria na rua funciona como uma espécie de roleta-russa que, ao ser atravessada, projeta o indivíduo em qualquer uma das mais de cinco milhões de possibilidades cosmológicas, mas nunca ao ponto de origem exato.
Coherence produz uma bem-sucedida mescla entre ficção científica e drama psicológico, oferecendo-nos algumas reflexões filosóficas profundas. A obra expõe a sucessão de consequências caóticas caso essas inúmeras realidades independentes se choquem. Entre as principais, destacam-se a perda da percepção temporal e a fragmentação da própria narrativa histórica pessoal a partir do contato com as diferentes versões, o que afeta profundamente a identidade dos personagens.
Como exemplo desse caos, Emily, ao perceber que sua outra versão estava numa realidade feliz, movida pela inveja, não hesita em atacar e dopar seu “eu alternativo”. O anel assume um papel de grande importância, na medida em que serve de âncora entre as realidades, identificando qual é a versão da personagem naquele momento e servindo para ela se agarrar a uma história feliz que ficou no passado. Ao amanhecer, Kevin, o noivo, recebe uma ligação da Emily agredida. Assim, a farsa é descoberta e ambas as versões seguem tragicamente entrelaçadas após a passagem do cometa. Talvez uma outra versão nossa saiba como essa história se desenvolve!
Considere-se o experimento mental: no exato momento de uma decisão, temos à nossa frente inúmeras possibilidades, mas, ao decidirmos, apenas uma se tornará real sob a nossa perspectiva temporal linear. Cada escolha carrega em si uma efetividade positiva – a cadeia de eventos que vai se suceder – e uma efetividade negativa – aquelas “vidas” que jamais vão existir, pois delas abrimos mão.
No cenário linear, as opções selecionadas esgotam o número de alternativas disponíveis. Contudo, se assumirmos como verdadeira a Interpretação de Muitos Mundos, a dinâmica da escolha assume nova configuração: todas as alternativas realizam-se compulsória e simultaneamente nas bifurcações cósmicas, de modo que cada realidade descola-se, assumindo independência e autonomia.
Quanto à condição humana, o filme entrega um veredito pessimista: confrontados com o desconhecido e demovidos de nossas certezas existenciais, somos flagrados agindo com hostilidade e violência contra as diferentes versões de nós mesmos. Nosso lado sombrio e autodestrutivo manifesta-se como mecanismo primitivo de autopreservação, não importando qual universo nos sirva de morada.
Por fim, o diretor James Ward Byrkit ironiza o conceito de “coerência”, pois ao contrário do que se poderia esperar – harmonia e estabilidade – as realidades simultâneas, ao se encontrarem, desencadearam caos existencial, tragédias relacionais e a efervescência dos sentimentos mais antagônicos da humanidade.
Caro leitor, o que será que suas versões estão fazendo nesse exato momento em outros universos?
By Ednaldo Teixeira
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Ano de lançamento: 2013
Disponível: no YouTube
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Se você quiser entender melhor as teorias quânticas exploradas metaforicamente no filme, veja abaixo um breve resumo dos conceitos:
O Experimento do Gato de Schrödinger: Experimento mental proposto pelo físico Erwin Schrödinger em 1935 para demonstrar a dificuldade de aplicar as leis das partículas quânticas – isto é, do mundo microscópico – ao mundo macroscópico. Quando não observadas, as partículas comportam-se como ondas de possibilidades, sobrepondo-se umas às outras, restando impossível determinar exatamente o estado em que o sistema se encontra antes da medição. Ao sofrer interferência de um observador ou de um equipamento de medição, esse sistema quântico colapsa sua função de onda e assume uma referência exata. No paradoxo, um gato, colocado numa caixa hermeticamente fechada com um dispositivo letal, estaria em uma superposição de “vivo e morto” até que a caixa fosse aberta. Vale notar que esse experimento foi ironicamente concebido para demonstrar o absurdo de transpor a lógica quântica para nossa realidade tangível. O filme vale-se da licença poética para realizar essa aplicação conceitual em escala humana.
Multiverso - A Interpretação de Muitos Mundos: Teoria da mecânica quântica criada em 1957 por Hugh Everett III, como alternativa ao colapso da função de onda. Dadas as múltiplas possibilidades da medição de uma partícula subatômica, cada resultado acontece de fato em universos distintos que se ramificam. O universo divide-se conforme o número de estados possíveis e, embora compartilhem o mesmo espaço, nenhuma realidade encontra-se ou funde-se a outra (na física ortodoxa), coexistindo de forma absoluta e independente.
Coerência e Decoerência: A fase em que os estados das partículas estão superpostos e interconectados recebe o nome de coerência quântica. Ao interagir com o ambiente externo, ocorre o isolamento das possibilidades que jamais se cruzam, originando a decoerência quântica. O filme explora essa lógica de forma poética quando a aproximação do cometa Miller provoca uma “coerência” temporária – a fusão das realidades –, ao passo que o afastamento do corpo celeste deflagra a “decoerência” definitiva, na qual cada personagem assume uma linha temporal isolada.
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