Se você quer assistir a um filme que te mantém atento a cada detalhe, “Ilha do Medo” é uma excelente recomendação. Isso porque, nesse thriller policial dramático, os detalhes não são meros componentes de cenário ou da história. Cada detalhe importa. Impossível não mencionar a envolvente trilha sonora com destaque para a melancólica "On the nature of daylight."
O macabro Hospital Psiquiátrico Ashecliffe, construído na ilha sombria que dá origem ao nome do filme, abriga criminosos de alta periculosidade. O ano é 1954 e, motivados pela denúncia de que uma paciente havia desaparecido misteriosamente, Teddy Daniels (DiCaprio) e Chuck Aule (Ruffalo) - policiais federais - vão à ilha para investigar os fatos. Logo se percebe o clima hostil do lugar, dos detentos e das equipes de profissionais que ali trabalham. Todos com semblante frio ou tenso demais desenvolvem diálogos que evidenciam mistérios e brincadeiras sarcásticas, típicas do estilo.
Durante as investigações, Teddy começa a ter flashbacks cada vez mais intensos sobre o passado de sua família e sobre sua atuação na Segunda Guerra Mundial, ambas experiências extremamente traumáticas. Essas lembranças deixam claro o motivo da agressividade que ele tenta controlar, mas por vezes extravasa. Aqui, DiCaprio mostra sua genialidade, pois é nessas transições de consciência que Laeddis/Teddy vive no limiar entre realidade e psicose. Vários aspectos filosóficos e psicológicos podem ser percebidos no filme, destacando-se:
1. O que não enfrentamos, nos assombra e adoece. Diante de memórias aterrorizantes e insuportáveis, Teddy, num movimento de fuga existencial, foi capaz de criar uma realidade paralela que lhe possibilitou conviver com as lembranças, porém de forma doentia. Assim, se há algum componente da nossa história que nos incomoda muito, é comum elaborarmos versões distorcidas da realidade a fim de torná-la menos dolorosa. Tal atitude nos leva a questionar se nossa realidade é objetiva ou resultado das interpretações que lhe damos.
2. Para chegar ao farol e ter o claro entendimento de tudo o que acontecia ali, Teddy enfrentou vários obstáculos externos, como tempestades e inúmeras hostilidades, bem como obstáculos internos - medos, inseguranças e confusão mental. Do mesmo modo, não será sem esforço que alcançaremos o máximo de clareza e consciência da realidade. Precisamos superar as barreiras psíquicas que insistem em impedir nossa jornada em direção à luz.
3. "O que seria pior: viver como um monstro ou morrer como um bom homem?" Essa é a última frase dita por Teddy que, infelizmente, teve um fim trágico. Evoca uma profunda reflexão quanto ao modo como queremos conduzir nossa vida. Nesse sentido, temos duas opções: A primeira é fugir de quem somos, evitando nossas “sombras” para tornar a vida aparentemente mais fácil, mas sabendo do preço que pagaremos à consciência. A segunda é desafiar, um a um, os “monstros e sombras” que nos levaram à calamidade existencial. Reconciliar com o passado e assumir uma nova postura no presente possibilitará uma vida saudável e equilibrada.
“Ilha do medo” é uma obra-prima que realizou a difícil tarefa de unir a uma ótima história elementos fundamentais da ciência, psicologia e filosofia, desnudando a condição humana e fazendo dela palco para profundas reflexões.
Faça o seguinte exercício: Assista e procure identificar semelhanças com sua própria vida!
By Ednaldo Teixeira
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Ano de lançamento: 2010
Disponível na Netflix.
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